ipcdigital.com

Warning: Call-time pass-by-reference has been deprecated in /home/ipcdigit/public_html/centenario/mambots/content/d4j_mosimage_ext.php on line 347
"Tive de me acostumar de novo a ler o katakana e com as palavras novas" Imprimir E-mail

Seizo Kobayashi

Quem é
Seizo Kobayashi, 66. Gostou tanto do Brasil que adotou o nome de Paulo. A família inteira (pais e seis filhos) emigrou, em 1961, para trabalhar numa fazenda em Bauru. Trinta e um anos depois ele e toda sua família (esposa e três filhos) fizeram o caminho de volta ao Japão.

 

Fui para o Brasil já na fase final da imigração. Em 1961, minha família decidiu deixar Fukuyama (Hiroshima). Viajamos no Santos Maru por cerca de 45 dias até chegarmos no litoral paulista. Passamos pelos Estados Unidos, Canal do Panamá e fomos beirando a costa brasileira até chegar em Santos.

O governo japonês financiou todo o custo da viagem. O visto brasileiro era de imigrante, equivalente ao Visto Permanente que o Japão oferece aos brasileiros hoje. Era para ir e não voltar. Minha família era composta por oito pessoas, meus pais e os seis filhos. Depois de Santos, viajamos de trem até Bauru (SP) para trabalhar na fazenda Hayakawa Noen. A gente plantava caqui, laranja, pimentão e verduras e lá também moravam mais três famílias de japoneses.

Não tivemos uma vida tão difícil como a dos primeiros imigrantes. Quando chegamos lá, já tinha casa construída para morar. Era de madeira, mas confortável. O principal problema foi mesmo o idioma. Mas fiz amizades com brasileiros e assim fui aprendendo a falar o português.

Meus pais já estavam acostumados ao trabalho na lavoura, pois em Fukuyama tinham uma plantação de arroz. Mas ele era o segundo filho e não teria o direito de receber herança das terras, pois no costume japonês o filho mais velho herda tudo. Então, meu pai decidiu começar vida nova no Brasil.

No Japão, os tempos difíceis foram na época da Segunda Guerra. Eu tinha só 4 anos, mas lembro que na hora dos bombardeios a gente pegava o "futon" (coberta) e corria para se esconder no "tambo" (arrozal). Muitas famílias fugiram de Fukuyama e lembro que elas foram caminhando pela beira do rio. Mas minha família não abandonou o local porque tinha terras. Não passamos fome, porque a gente comia o que colhia.

Em Bauru, trabalhamos por cerca de um ano e meio na primeira fazenda, e depois mudamos para a fazenda Sakae Noen, para plantar arroz, tomate e pepino. Foi então que deu para guardar algum dinheiro, porque nessa fazenda o sistema era de meeiro, meu pai ficava com a metade do que produzia. Eu não tinha salário. Meus pais recebiam tudo, e quando eu precisava de dinheiro, pedia para eles e ia passear na cidade.

Quando estava com 27 anos, deixamos Bauru e fomos tentar a vida em São Paulo. Fomos morar no bairro do Jabaquara e abrimos uma tinturaria. Casei com Tomoko, que nasceu em Kumamoto. Com o Plano Collor e o surgimento do movimento dekassegui nos anos 80 resolvi fazer o caminho de volta ao Japão.

Vim primeiro, em 1992, e minha família ficou em São Paulo. Fui para Chiba trabalhar num “bentoya”. Economizei durante 5 anos para poder trazer minha família toda para cá. Mas quando eles chegaram e fomos morar em Iwata, as empreiteiras disseram que eu já tinha mais de 50 anos e ficou difícil arranjar trabalho. Minha esposa e meus filhos Mayumi, Hirokazu e André conseguiram emprego e continuam morando em Iwata.

Além da saudade da família, o que mais senti dificuldades ao voltar para o Japão foi me acostumar de novo com a escrita em katakana (silabário japonês para grafar nomes e palavras estrangeiras). Já estava habituado com o português, e quando cheguei aqui tinham tantas palavras escritas em katakana! Estava desacostumado com a falta de espaço entre as palavras. Também tive que me acostumar com essas palavras mais recentes, do Japão moderno, como eakon (ar-condicionado), kombini (loja de conveniência) e por aí vai.

Estranhei também a quantidade de casas. Visitei Fukuyama e onde a gente morava não existe mais o arrozal, agora é tudo casa. Mas na minha época era tudo campo.

Decidimos que não vamos mais voltar para o Brasil. Sinto-me brasileiro e japonês ao mesmo tempo. Quando jogam Brasil e Japão, no futebol ou no vôlei, quem vencer está bom. Mas no Brasil, torço para o Santos, de ir ao estádio. Hoje me sinto feliz no Japão. Mas no Brasil também fui feliz, apesar da economia instável.

Hoje sou aposentado e recebo do governo japonês a importância de ¥ 15 mil. Não dá nem para comer. Por isso, e para não ficar parado, arranjei um bico de motorista de uma escola perto de casa. Para não perde o hábito de quando estava no Brasil, planto no quintal de casa cebola, salsa, repolho e nabo.

Osny Arashiro/IPC